sábado, 17 de junho de 2017

Tracklist da semana - Via Spotify - Canções de Amor e Baladas (Love Songs and Ballads)

Muito bem... O Dia dos Namorados passou... Graças a Deus! Pois é pavoroso ver o amor transformado em um monte de promessas sem graça, presentes caros, futilidade e postagens em redes sociais.

Sim, eu sou muito old school. E posso muito bem ter sido, na existência passada, um homem ou mulher dos anos 20 ou 60, escrevendo longas cartas apaixonadas e saudosistas durante as guerras.

Eu tenho um coração. Não sou a bruxa má que faz poções para matar a princesa loira e da voz de arranha disco e ficar, assim, com o príncipe ainda mais insosso.

Pensando bem...
... As feiticeiras são bem mais sexies e atraentes hoje em dia.

Linus Larrabee
Harrison Ford
Sabrina - 1995
Eu sou como o Linus Larrabee em Sabrina (1995). E um dos melhores diálogos do filme apresenta exatamente o que eu penso sobre o mundo dos relacionamentos:

Sabrina pergunta a Linus:

 - Foi por esta razão que você nunca se casou? Você provavelmente não acredita no casamento.

E Linus sabiamente responde:

 - Sim, eu acredito. É por isso que eu nunca me casei.

Espero que gostem dessa tracklist, pois aqui estão quase todas as músicas que eu desejaria dançar com alguém em um desses encontros que o destino prepara maliciosamente...

Jamie Fraser
Sam Heughan
Outland - 2014
Vou ressaltar que eu montei essa lista totalmente DROGADA por remédios para dor crônica... E... Sinceramente... Eu acho que estou vendo o Jamie Fraser da série Outland na minha janela...

Oh... Meus Deus... Eu não estou sentindo o meu rosto... E nenhum ossinho do meu corpo... Estou flutuando... Acho que virei um raio de luz. 

Love Songs and Ballads - Playlist do Spotify 
feita por T.S. Frank 
Seleção de músicas por T.S. Frank


Lembrete: provavelmente você irá escutar somente 30 segundos de cada 
música se não tiver o Spotify instalado. Então eu recomendo que o tenha
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terça-feira, 6 de junho de 2017

Tartarus

Frias e brilhantes reinam lápides de mármore.

E jazem silenciosamente todos os restos de corações pueris. 

Todos eles brutalmente assassinados.

É um lugar amaldiçoado, cheio de pesar. 

Mas sutilmente realista.

É a tragédia do saber-se desnudado e humilhado.

Um alvorecer de vergonha em cada nota de despertar.

Pois aqueles que amaram muito

[por dias infinitos de imaginação] 

vivem seu próprio inferno. 

Enterrados estão seus sentimentos. 

E seus corpos são preenchidos por um vazio catalítico.

Em meu epitáfio, apenas meu nome. 

Em minha cova, pérolas e ossos metálicos.

Não sou mais quem deveria ser.

E minha alma apenas vagueia...

Estão todos avisados - não teçam ilusões!

Apaguem as luzes e rasguem as poesias.

Bati a pesada porta...

E tranquei-me para sempre.

T.S. Frank

domingo, 28 de maio de 2017

O peixe fora d'água

Cai uma leve e deliciosa chuva lá fora. Lembro-me que clamei por essa sensação de frescor anteriormente. Porém aqui dentro é como uma pequena guerra cheia de feridos e sangue. E este cenário é uma tela em que memórias amargas ressurgem.

De todas as palavras que aprendi cedo, a primeira e mais esquisita foi egoísmo. E ela surgiu em um dia ordinário que, por ordem natural, deveria ser uma celebração com doces momentos infantis. Era a minha primeira festa de aniversário e eu já tinha uns nove anos.

Chegado o momento de cortar o bolo e dar o primeiro pedaço, eis que a intensa e férvida vontade de falar algo extraordinário e digno de admiração saiu como dentes de leão na primavera:

 - O primeiro pedaço de bolo vai para mim mesma!

Ah, como eu senti-me orgulhosa, brava e intrépida. Só que não foi totalmente original, pois eu tinha ido a uma festa de uma menina bem mais nova e esta fez exatamente essa declaração de auto consciência de si mesma. Nossa, eu achei aquilo um máximo! E lembro que todos riram e mostraram sinais de aprovação e uma eufórica surpresa com aquela criaturinha tão cheia do próprio amor. Eu queria a mesma sensação, sim, eu queria.

Mas comigo foi um imenso desastre. E até hoje eu não entendi o porquê. Olhares de reprovação e de vergonha, uma verdadeira mancha em um tecido que deveria estar imaculado. Tive um ataque de pânico e o medo tomou meu coração - eu sentia o que estava vindo... O inverno perpétuo.

 - Que menina egoísta. Desde sempre!

Foi o fim do meu brilho e talvez um dos primeiros acontecimentos-base para minha eterna reprovação crônica. Até hoje detesto sussurros por conta desse episódio (e por outros que escutei uma vida inteira). Eu passei a associar o amor-próprio auto declarado a uma espécie de maldição, uma marca de nascença e a uma afronta desmedida.

Eu só tinha nove anos e ninguém ouviu minhas explicações... Não, espera... Eu não expliquei nada... Eu estava muito aterrorizada.

Eu acredito que nessa minha existência atual eu sou um completo peixe fora d'água, bem longe do mar de empatia ideal para uma vida plena. Estou em uma obra misteriosa para resolver pendências de um tempo imemorial.

Claro, foi-me negado o bem-estar com o meu verdadeiro ser, considerado muito errado, extremamente não altruísta, divergente e abominável na maioria das vezes. E sobre isso só há uma saída - o abandono da culpa imposta e o recomeço bem longe. 

Contudo é devastador colocar-se diante do espelho e olhar-se terrivelmente desfigurada pela má interpretação.

Sinto que o abismo está bem mais perto do que eu imagino - justamente nesse salto arriscado para um outro mundo.


quinta-feira, 25 de maio de 2017

No palco da dor crônica e outras tristezas cotidianas

A vida, em um dia qualquer, foi soprada em nossas narinas e, como um presente delicado e nobre, não pode ser rejeitada e muito menos amaldiçoada. E qualquer ação que a danifique por vontade do novo proprietário é vista como um ultraje dantesco, não importando que este vento motriz seja um vale cheio de estradas navalhadas, com um horizonte cinzento, árvores mortas e águas turvas de lamentações e lágrimas.

Estive pensando nessa descrição e como ela é caprichosa e cheia de mistérios nas entrelinhas. Antes de possuirmos essa consciência, talvez fervorosamente pedimos pelo renascimento e por outra chance. Contudo a hipótese mais condizente é aquela do grande empurrão inesperado para tentarmos aprender o que foi deixado de lado ou incompleto.

Dizem alguns que somos todos concebidos pelo amor. Bem utópica esta ideia, mas não há de negar-se a beleza de tal proposição. É como adentrar a história de Psiquê e o Cupido.

Sim, existem alguns afortunados originários dessa fonte - e como são eles cobertos por olhares de inveja. Porém emergimos, recorrentemente, por consequência somente do prazer alheio unilateral e egoísta. É como ser contratado, por tempo indefinido, para uma peça teatral. E nessa turnê há toda sorte de atores e atrizes, um poço de não empatia, além da encenação que pode ser uma tragédia grega ou um drama satírico.

Fiquei a repassar todo este cenário e a maneira como ele encaixa-se nesta minha atual existência.

Em qual ato está a minha dor crônica? Será que ela desaparecerá, se desaparecer, antes dos aplausos finais?

Há seis anos ela reina absoluta frente as ribaltas, regida por frenesis senoidais. E estou tão farta que eu gostaria de dissolver-me e virar, por alguns instantes infinitos, partículas douradas de luz.

Hoje estou em cartaz com este monólogo e minhas palavras atingem as vazias cadeiras. E eu chorei rios que desemborcaram em um mar rubro de angústia e medo.

O único lugar em que posso ser meu eu essencial, mesmo fragmentada, é por trás das cortinas, bem onde há os velhos caixotes. Minha imaginação e minha alma saem desse teatro em ruínas e condessam-se em uma nuvem que flutua por outros espetáculos que mostram vidas doces e normais, cheias de prazeres e sorrisos, amores e amantes, onde não há espaço para nenhum tipo de dor.

Entretanto há um grande perigo em visitar constantemente minhas próprias ilusões - elas são perfeitas e nascem do ato de vestir-me com roupas que não foram feitas para minhas medidas. A fantasia irá rasgar-se mais cedo ou mais tarde, quebrando as barreiras mal feitas da auto proteção. Rajadas de realidade ignorada matam tanto quanto a própria realidade cruel.

O meu mal crônico rasgou minhas vestes. E agora sinto-me prisioneira de um lugar repleto de veracidade que mostra manhãs de escárnio e noites de gritos sufocados.

E está proibida qualquer queixa sob pena de represálias. E falar sobre o que sente-se, segundo os diretores, é o maior sinal de fraqueza de uma atriz que enfrenta a linha tênue do fracasso e esquecimento.

E em quais outros tablados eu já pisei? Estas pessoas que conheço estavam lá? As mentes e corpos que amei também estão aqui? Amam eles, agora, outros daqui ou os que estão longe desses muros? Bem... Respostas faltam-me.

E essa dor duradoura esmaece meu coração e maltrata os pequenos brotos de sentimento. Lá estão eles, franzinos e temerosos. Famintos, precisam nutrir-se de uma confiança quebradiça que os levará ao declínio.

Eis que chega a noite com seu véu negro e brilhantemente pontilhado. Escuto o som de algumas luzes a serem desligadas. Mas há uma que nunca se apaga, mesmo envolta em grandes conflitos e males - uns chamam de felicidade... E eu de esperança.



segunda-feira, 15 de maio de 2017

Um namoro falido e violento

O amor não existe, pressupus um dia.

Talvez se eu tentasse apenas gostar de alguém...

E assim nasceu um namoro falido e violento. Desse Lembro-me bem.

Ele sempre dizia que eu não era interessada em crescer e se rica, apenas em sonhar com uma profissão nada rentável e gastar o que não tinha. Ele, filho de um juiz, um fanático religioso desviado que levava as mulheres para dormir em sua casa e suprir carências sexuais, afetivas e maternais dele, enquanto dizia-lhes sobre os deveres de uma esposa, o que ela poderia ser em um casamento.

Um dia ele reclamou que eu não usava maquiagem diariamente:
- Não vou ensinar você a ser UMA VERDADEIRA MULHER. Você já deveria ter aprendido! Ora, que sacrilégio não usar uma base nas unhas!

Em outro momento fez-me chorar copiosamente. Eu queria apenas comer fora em um domingo qualquer. Só que eu não poderia, tinha que cozinhar na casa dele:
- Você não possui dinheiro para esse luxo e eu não vou pagar!

Aliás, fez questão de deixar bem claro que só casaria comigo se eu pagasse minhas dívidas. Ele não iria trabalhar para pagar nada de ninguém. Quem falou em casamento? E em pagar dívidas? De onde saiu tudo isso?

Se eu ficasse doente ou muito cansada da faculdade e não pudesse ir para casa dele, escutava:
- Do que adianta uma namorada se não se pode ter sexo na hora em que se quer?

Ele, um estudante de psicologia, usava as minhas incertezas e angústias contra mim mesma.

Eu tinha que agradar a mãe dele, que desprezava-me porque eu morava em um bairro popular e não era da mesma religião da família. Uma vez ele brigou porque eu não fiz sala para a irmã.

Ele, com três meses de namoro, não convidou-me para a festa de aniversário dele na casa da família. O motivo era ridículo e escandaloso - eu não conhecia a tão famosa e intocável mãe. De último momento, resolveu mudar de idéia. Claramente recusei.

No dia dos namorados, depois de muito arrumar-me, ele levou-me para casa dele. Foi um jantar pavoroso e sem graça. Não ganhei presente e ele ainda reclamou do meu. Esse circo tosco foi a desculpa perfeita para que não houvesse despesas e eu dormisse lá.

Com seis meses eu resolvi terminar. Em uma viagem, senti-me atraída por outro homem.

No caminho para o lugar que marcamos, depois da minha chegada, ele queixava-se porque eu era a única e exclusiva culpada pelo namoro não estar indo bem, que eu tinha que mudar se quisesse mantê-lo. Ele salientou que quando começou a namorar comigo, saía com outras mulheres e tinha muitas opções. Eu deveria orgulhar-me por ele ter escolhido-me.

Assim que falei que estava acabado, ele quase teve um ataque cardíaco. Não acreditou que eu estava tendo aquela audácia. Ele repetiu várias vezes que foi um erro ter apresentado-me a mãe dele e toda a família (muito antes disso, eu tinha apresentado a minha!).

Tirei um grande peso das costas e acabei com uma farsa. Contudo fiquei com essa repulsa por compromissos e namoros, quase como um asco.

Depois de procurar saber mais e mais sobre o feminismo, descobri que fui vítima de abuso e violência psicológica.

Sinto-me mais segura e decidida hoje neste campo. Não tenho vontade alguma de enveredar-me por esse caminho novamente.

Minha solteirice tornou-se meu refúgio.

terça-feira, 2 de maio de 2017

In perpetuum mobile

O que se faz com um punhado de felicidade?
Uns docinhos merengues coloridos
com um gosto tão enjoativo
que dá uma certa azia.

E o que se faz com um bocado de tristeza?
Uma poção azul metálica bem venenosa
de amargar toda a boca
e morrer só de desgosto.

O nada nunca será suficiente
e muito menos o tudo.
É um acabar-se de exagero
de muitos que querem o mundo.

Eu rejeito a felicidade
como um gato preto
que sabe por instinto
da morte na encruzilhada.

Eu abraço a tristeza
como um peregrino
cego em sua fé
e vazio de confiança.

Um extremo, o oriente
E na outra ponta, o ocidente.
E nunca quero eu o centro
por teimar em não desvelar.

Mas não há como negar
que se um não agir
o outro não existirá.

No fim, meu coração dramático
é um poço de alquimia
que explode todo dia.

A felicidade tem fim
e a tristeza, bem...
Quem sabe.

T.S. Frank




segunda-feira, 1 de maio de 2017

Belchior (1946-2017) - O poeta das desventuras e a palo seco


Ah, Belchior... Agora que tu encerraste esta existência e foi preparar-te para uma outra, que será muito mais satisfatória e cheia de respostas para teus anseios, não poderia eu fugir das lembranças de tua companhia de uns oito anos atrás, tocando repetidamente A Palo Seco e por Medo de Avião em minhas madrugadas incertas e também preenchidas por conclusões nada floreadas da vida. Sim, essa realidade e essas desventuras também assolam-me, por isso tuas músicas caem-me como uma luva.

Tu fizeste-me rever João Cabral de Melo Neto hoje e este livro de capa verde que olho aqui do lado. Foi quase certo que o teu a palo seco também veio do mesmo dele. E eu fiquei refletindo sobre essa expressão tão significativa, que para ambos, representava seus navios com o mastro, mas sem vela, ou mesmo o cante flamenco unicamente com a voz, sem qualquer acompanhamento musical.

De onde tua faca veio, em forma de canto torto, também veio Uma Faca Só Lamina de nosso amigo escritor e poeta nordestino de uma Vida Severina.

Sabe... Eu também tenho medo de avião... E um montão de roupas velhas coloridas. E não possuo dinheiro no banco, muito menos parentes importantes e eu vim do interior.

Tu estás nas tuas canções e nós nelas também.

Ecoa em minha mente, com chiados daquele teu vinil numa vitrola, minha vida que começava a ser construída para meu bem e para meu mal.

Nunca esquecerei-te.

Sigas em paz e em direção à luz.

Con soidade já estou...












quarta-feira, 26 de abril de 2017

Delirium Tremens



Hoje pensei que poderia definir-me através de um turbilhão de sentimentos em forma de uma dessas pílulas que toma-se para distúrbios de personalidade e humor. Entretanto foi apenas uma tentativa fracassada. Ainda não há resposta coerente e satisfatória.

Um dia mais do que tedioso e meu peito pulsava, ao anoitecer, com o mesmo ódio enjaulado de sempre.

Nada mais sou do que uma pecadora que teima em não seguir a resignação de vida. E uma pobre tola que ainda fere-se com a reação alheia aos pequenos erros cometidos.

Talvez eu realmente mereça fenecer em tristeza. Porque sou uma dessas almas impuras que não aceita cortesias superficiais, trivialidades e vulgaridade.

Ah, meu Deus, como a vulgaridade é um monstro assustador e profano. E como eu a abomino veementemente.

Se eu pudesse, vestiria-me como um dândis... Não... Eu não posso, sou uma mulher. E até nisso eles criaram uma palavra bem mais pomposa e nobre que os expliquem com requinte. E só resta-me esperar que um dia surja uma definição assim tão majestosa para mulheres e que não as relegue a bonecas de luxo.

Eu queria sentir o mesmo que Oscar Wilde nos tempos de glória - um divino endeusamento de mim mesma.

Contudo cabe-me mais o retrato de Poe definhando na calçada, afogando-se em seus próprios desvios e revendo, pela última vez, seus contos de terror em meio ao delirium tremens.

Como eu anseio por deleites com cores sibilantes, por pessoas com a mente de Atenas e o corpo de Aquiles. É quase como uma sede agonizante e silenciosa, um pequeno desespero, um pedido de socorro.

Devo ser punida por querer outra realidade e está cansada de todos ao redor. Porém não hei de calar-me apenas para satisfazer a vaidade daqueles que só enxergam-me como casa de passagem.

Eu quero muito mais em exuberância, membros desenhados em linhas fortes e seguras, quiçá um tantinho de devoção e muitas noites prazerosas e crepitantes.

Não, ninguém, até hoje pode oferecer-me o que anseio. Muitos chegaram a ser grandes promessas e terminaram como ejaculações precoces.

Estou sucumbido no vazio do que desejo. E o pior é saber que esse abismo pode ser infinito. E uma queda que não tem fim é pior até do que a própria morte.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Tenebrae

Lá bem distante, no infinito passado, eu olhava o céu do meio-dia, escondida do mundo ao meu redor. Aquelas nuvens brancas passavam calidamente por entre um azul de um fulgor intenso e infindável. Eu tinha o meu próprio universo e este era protegido dos dragões que cuspiam palavras de terror e de ofensas. Dia após dia, todos esses monstros, com faces humanas, tentavam arrancar minha armadura. Algumas partes foram destruídas e feridas e suas cicatrizes rugosas ainda doem. Porém eu consegui caminhar um pouco além e desbravar alguns novos mundos mais adiante.

Eu pensei, muitas vezes, como seria chegar aos 30 anos E nesses lampejos cerebrais eu não tinha forma nem de homem ou mulher. Eu via-me apenas como um indivíduo sentado em meio a um monte de livros, analisando a passagem do próximo cometa. O mais impressionante é que não havia mais ninguém por perto - apenas uma casa de madeira, a quietude de uma floresta densa e umas parafernálias altamente tecnológicas.

Pobre criança, perdida em seus sonhos pueris...

Hoje eu tenho um pouquinho mais de 30 e sinto-me uma prisioneira em um inferno que, como as estrelas azuis, parece, a olhos alheios, calmaria do mar, enquanto por dentro é uma agonia fervente.

Assim como em O Feitiço do Tempo, o mesmo dia repete-se numa cadeia cíclica sem fim. E esse é triste e cheio de acusações. Todos os dias escuto que o tempo está passando, que minha idade está avançada, que as mulheres da minha idade já têm filhos e maridos. É a mesma fala, como um mantra, para assim não esquecer-me de quem eu realmente sou: uma aluarada balzaquiana vencida.

Às vezes eu odeio-me o bastante para pensar que todos esses fatos tristes são merecidos até por demais.

Ninguém mandou-me sonhar com o céu e seus pontos brilhantes inatingíveis. Enquanto todas as meninas sonhavam com suas famílias, eu queria mesmo era encontrar um disco voador (ou aquela nave do Carl Sagan) e navegar pelas poeiras cósmicas e nebulosas. Eu também queria caçar um tornado e esperar a próxima tempestade à leste, cheia de nuvens gorduchas e cinzentas. 

Poucos entendem a minha paixão por cinema e livros. Ali as histórias românticas e policiais, grandes épicos e jornadas de vidas levam-me a ter outra existência, um novo corpo, mantendo-me com a mesma mente. Ora, o que quer um escravo senão algumas horas de autonomia? O que mantém um cativo vivo senão a utopia de liberdade? Apesar de ouvir que vivo perdendo meu tempo com essas inutilidades que não me tirarão da sarjeta do desemprego ou trarão o status que uma sociedade pede a um cidadão, é esse dito desperdício que conserva-me de pé em meio a tanta desvalorização dos outros para comigo.

Há uma cena no filme O Jovem Andersen em que o já adolescente Hans Christian Andersen acha-se incapaz de satisfazer seu tutor. Depois de tentarem arranca-lhe os sonhos, podarem sua liberdade artística, além da morte do seu melhor amigo, e a um passo da demência total, ele resolve dar cabo da própria vida. Vai a um cais e joga-se ao mar. E entre a vida e a morte, numa espécie de limbo, ele vê seu falecido grande amigo Tuck no paraíso. Tuck fala a Andersen que ele tinha que viver e contar suas histórias. Aquele menino do fundo mar salvou Andersen da morte. E ele emergiu para escrever A Pequena Sereia, que não só deu-lhe fama mundial e o colocou no Olimpo dos melhores escritores de todos os tempos, como também emocionou o seu algoz. 

A alegoria de Tuck no paraíso do fundo do mar mostra que um fio de crença em nós mesmos, pode, até no mais nefasto purgatório, ser a nossa redenção. E ao repassar essa cena em minha mente, fico-me a perguntar se em mim, ou lá fora, também existe um Tuck.

Eu vivi histórias reais infelizes, cheias de ódio e rancor. Mas eu também vivi histórias fantásticas em minha mente. E graças a elas, e a uma esperança que não deveria existir, eu posso escrever neste hoje.

Eu queria não ser delimitada por padrões. Eu queria não ter dor crônica e amar muito e receber, ao menos, um pouquinho de afeição ou longas cartas manuscritas de amores e amantes. De fato, eu queria muito desse muito que é o mundo real.

Se é uma ousadia... Quiçá...

Custa-me acreditar que, como uma mercadoria, eu tenha um prazo de utilidade. E como uma mentira contada muitas vezes pode tornar-se verdade, meu medo futuro é que essa ESCURIDÃO aposse-se de mim.

No fundo eu sei que nada disso que acontece pertence-me. Muitos não sabem o que fazer com o diferente, com a bolinha vermelha destacando-se das azuis, tomando rumos contraditórios e sendo apenas ela mesma.

Longe de mim ser uma unanimidade. Sou para poucos e tão vermelhos como eu. O mais difícil é saber se eu vou conseguir não sucumbir até que todo esplendor do inatingível atinja de vez a minha alma.

sábado, 15 de abril de 2017

O samaritanismo - um convite aos caos interior

Uma das coisas que mais detesto em minha vida é ajudar casais que estão em processo de separação. Mas mesmo não gostando dessa tarefa, procuro fazê-la com a maior destreza e máximo empenho.

Porém, no final das contas, basta um pequeno comentário, alguma coisa despercebida e tudo volta-se contra àquele que estava com o papel mais injusto de todos os tempos: o bom samaritano.

Nas minhas relações amorosas complicadas e abusivas não existiu absolutamente uma única pessoa que pudesse oferecer-me uma palavra de conforto ou levantar a minha auto-estima. Isso não me impediu de tentar obter ajuda fracasso após fracasso e essa missão foi quase suicida. Muito do que foi dito-me fez com que, hoje, eu fechasse as portas para qualquer começo de interatividade e perdesse o interesse no ser humano em geral.

Entretanto refleti que o que faltava para mim eu poderia oferecer aos outros. As palavras ditas no momento certo podem reerguer almas do fundo do poço. Não seria justo fazer com que os que precisassem fossem vítimas de uma vingança pessoal.

Sempre que posso eu escuto as pessoas, seus problemas e aflições. Deixo-as falar bastante e quase sem cortes, pois sou, naquele momento, apenas os ouvidos. Eu sei o quanto isso é importante. E como eu sei? Porque nunca tive esse privilégio - de alguém que pudesse sentir todas as minhas angústias. As vezes que eu naveguei por essas águas turvas, a minha voz foi abafada, dando lugar a comparações e a tomada de lugares. Não me recordo de ter finalizado uma história minha um momento sequer. E assim eu desisti. Por isso eu gosto de escrever. Não treinei minha própria voz e passei a entender que nada do que eu pudesse falar poderia ser assimilado por outrem.

Talvez eu já tenha ajudado muita gente. Isso é um conforto em meio a tanto dissabor e tristeza. Só que esse fato não me exime de sofrer as consequências e as distorções por parte de alguns que ofereço o meu auxílio.

E foi isso que aconteceu ontem. Fui ajudar um casal de conhecidos e, no final, tudo reverteu-se contra mim.

Não entrarei em detalhes e não contarei a história. O que posso dizer é que a injustiça, traição e mal entendidos partem, na maioria das vezes, daqueles a quem ofereceu-se socorro, ombro amigo e, principalmente, muita paciência.

Que isso sirva de lição.

O mundo não passa de uma embuste, com fanáticos religiosos, hipocrisia e muita deslealdade.

Por isso a solidão não é uma inimiga - ela é a única digna de confiança.